A galáxia se orienta ao redor de um eixo gravitacional. O mesmo é reproduzido no nosso sistema. Ao redor do sol a Terra, e demais planetas, se orienta. Digo baseado em meu limitado conhecimento sobre física.
É essa a regra natural. E minha analogia é a seguinte: gravidade = média.
Logo... Sendo a tendência natural das coisas girar em torno da média, é natural que tudo fora disso seja considerado um mero disturbio e descartado como um erro padrão.
É nesse limiar, nessa margem (limiar marginal), que se encontra a poesia. Pelo menos segundo o pequeno grande Manuel de Barros. Quem disse algo como:
"Poesia é coisa de criança, de bêbado ou louco".
É nesse curto espaço marginal que se encontra a genuina humanidade. Essa ilógica tendência de buscar o belo ao invés do prático.
19/12/2009
12/12/2009
07/12/2009
Coisas pra se fazer antes de morrer
Tem um enredo clichê de animações e filmes de sessão da tarde, que consiste em o personagem descobrir que lhe faltam umas poucas horas de vida. Então ele resolve fazer as coisas que sempre achou que deveria fazer, mas estava cego demais pela rotina para faze-las. E parte em jornada contra o tempo para plantar uma árvore, dizer ao velho pai que o ama, e por aí afora.
Eu acho que se recebesse a tal notícia eu estaria onde/como estou agora. Já que de cara sei que teria problemas em cumprir uma lista dessas, que estaria encabeçada por beber um Romanée-Conti, safra a decidir, mas anterior à década de 1990. Seria inútil pensar nas coisas que gostaria de fazer antes de morrer, antes pensaria nas que eu poderia fazer. Entre elas, fazer porra nenhuma.
Apesar de tudo, apesar d'as vezes a vida parecer um lugar miserável. Temos sempre a infalibilidade da morte pra nos consolar. Ela nos dá a desculpa pra cometermos uma ou outra "loucura". A sua aleatória possibilidade é um motivo racional para não levarmos a sério o "mundo adulto".
Acho que essa idéia é a área de interseção entre um Omar Khayyam traduzido por FitzGerald e um Khayyam terci-traduzido por Bandeira.
SEGUNDOS DE SABEDORIA:
"Amigo não faças plano
Para amanhã. Sabes lá
Se poderás terminar
A frase que vais dizer?
Talvéz bem longe amanhã
Estejamos deste albergue,
Já iguais aos que faleceram
Há mais de sete mil anos."
Eu acho que se recebesse a tal notícia eu estaria onde/como estou agora. Já que de cara sei que teria problemas em cumprir uma lista dessas, que estaria encabeçada por beber um Romanée-Conti, safra a decidir, mas anterior à década de 1990. Seria inútil pensar nas coisas que gostaria de fazer antes de morrer, antes pensaria nas que eu poderia fazer. Entre elas, fazer porra nenhuma.
Apesar de tudo, apesar d'as vezes a vida parecer um lugar miserável. Temos sempre a infalibilidade da morte pra nos consolar. Ela nos dá a desculpa pra cometermos uma ou outra "loucura". A sua aleatória possibilidade é um motivo racional para não levarmos a sério o "mundo adulto".
Acho que essa idéia é a área de interseção entre um Omar Khayyam traduzido por FitzGerald e um Khayyam terci-traduzido por Bandeira.
SEGUNDOS DE SABEDORIA:
"Amigo não faças plano
Para amanhã. Sabes lá
Se poderás terminar
A frase que vais dizer?
Talvéz bem longe amanhã
Estejamos deste albergue,
Já iguais aos que faleceram
Há mais de sete mil anos."
05/12/2009
Atirem no Dramaturgo

E não é que atiraram mesmo? Eu não sou muito ligado em teatro, nunca fui. Por isso não conheço a obra de Mario Bortolotto. A primeira vez que ouvi falar dele foi num programa de entrevistas que tinha no Canal 21, com Lobão, Marcelo Tás e uma gostosa gaucha (pelo menos na época era gostosa). Acho que foi a única vez que assisti a esse programa. Eu simpatizei de cara com a figura do sr. Bortolotto. Que concedeu a entrevista usando óculos escuro e segurando a taça (nas entrevistas a turma servia vinho ao convidado, lembrei, saca-rolhas o nome do programa!) de vinho tinto pelo bojo.
Lembro que em dado momento ele falou da dica saudável dos médicos em relação ao vinho, ele até seguia, mas no lugar de duas a três taças de vinho ao dia ele bebia de duas a três garrafas. Uma figura interessante o cara. É só dar uma passada no blog dele (http://atirenodramaturgo.zip.net/) pra sacar seu estilo de Bukowiski da dramaturgia nacional.
Ele foi baleado durante uma tentativa de assalto a um bar, espécie de QG da turma do teatro. Aliás o bar é anexo ao teatro, onde havia sido encenada a peça mais recente do autor, Brutal.
A história recente do centro de São Paulo vem sendo associada ao termo Cracolândia. Designa uma Zona onde todo tipo de degradação humana, roubos, estupros, assassinatos, etc., existe como que em louvor ao Crack. A ladainha já vem de uns vinte anos, creio. A televisão mostra em horário nobre a movimentada vida na cracolândia. Oh, chocante!! Polícia vem e faz mega operação em conjunto com a prefeitura e acaba com a cracolândia. Acaba? Acaba nada, ela só muda de endereço, mas sempre ali no centro.
Agora a prefeitura lançou o jargão "revitalização do centro de São Paulo", que até o "homem do vinho" cita muito em seu espaço publicitário na Rede TV. Isso é conversa fiada, é só mais um elemento pra se juntar à ladainha da cracofantasmalândia.
Recentemente a prefeitura e as construtoras, que irão executar o projeto habitacional no centro, entraram em impasse. Quais os logros dessa revitalização que tantos enchem a boca pra falar? A revitalização vai ficar apenas nas faixadas antigas finalmente despidas das horriveis placas publicitárias?
O centro antigo é um lugar legal. Eu tenho até um roteiro fixo. Desço do trem na estação da Luz, dou um role no mercado municipal e depois, já saindo um pouco do centro, vou nas ruas da zona cerealista. Onde, inclusive, tem a loja matriz da World Wine.
Bem, melhoras pro sr. Bortolloto, que, sim, viu no submundo uma certa fonte de inspiração. Uma espécie de fascínio bandido. Se minha impressão sobre ele não está errada, creio que entendo. Mas há pelo menos dois submundos. Um deles é o dos mortos-vivos da cracolândia. Esse não fascina, só enoja.
Lembro que em dado momento ele falou da dica saudável dos médicos em relação ao vinho, ele até seguia, mas no lugar de duas a três taças de vinho ao dia ele bebia de duas a três garrafas. Uma figura interessante o cara. É só dar uma passada no blog dele (http://atirenodramaturgo.zip.net/) pra sacar seu estilo de Bukowiski da dramaturgia nacional.
Ele foi baleado durante uma tentativa de assalto a um bar, espécie de QG da turma do teatro. Aliás o bar é anexo ao teatro, onde havia sido encenada a peça mais recente do autor, Brutal.
A história recente do centro de São Paulo vem sendo associada ao termo Cracolândia. Designa uma Zona onde todo tipo de degradação humana, roubos, estupros, assassinatos, etc., existe como que em louvor ao Crack. A ladainha já vem de uns vinte anos, creio. A televisão mostra em horário nobre a movimentada vida na cracolândia. Oh, chocante!! Polícia vem e faz mega operação em conjunto com a prefeitura e acaba com a cracolândia. Acaba? Acaba nada, ela só muda de endereço, mas sempre ali no centro.
Agora a prefeitura lançou o jargão "revitalização do centro de São Paulo", que até o "homem do vinho" cita muito em seu espaço publicitário na Rede TV. Isso é conversa fiada, é só mais um elemento pra se juntar à ladainha da cracofantasmalândia.
Recentemente a prefeitura e as construtoras, que irão executar o projeto habitacional no centro, entraram em impasse. Quais os logros dessa revitalização que tantos enchem a boca pra falar? A revitalização vai ficar apenas nas faixadas antigas finalmente despidas das horriveis placas publicitárias?
O centro antigo é um lugar legal. Eu tenho até um roteiro fixo. Desço do trem na estação da Luz, dou um role no mercado municipal e depois, já saindo um pouco do centro, vou nas ruas da zona cerealista. Onde, inclusive, tem a loja matriz da World Wine.
Bem, melhoras pro sr. Bortolloto, que, sim, viu no submundo uma certa fonte de inspiração. Uma espécie de fascínio bandido. Se minha impressão sobre ele não está errada, creio que entendo. Mas há pelo menos dois submundos. Um deles é o dos mortos-vivos da cracolândia. Esse não fascina, só enoja.
Créditos pela foto: Everton Vasconcelos.
Rosso Piceno

"Un soir, l'âme du vin chantait dans les bouteilles:
«Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Un chant plein de lumière et de fraternité!"
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Un chant plein de lumière et de fraternité!"
L'Âme du vin, Charles Baudelaire
Sozinho em meu quarto, pela madrugada estudando, eu tenho aquela famosa impressão de estar sendo observado. Olho para o lado, e só vejo minha pequena adega. Estaria algum vinho me chamando em cantiga? Me pedindo para ser libertado da garrafa? Provavelmente não.
Ainda que sem ser chamado, fui ter uma palavrinha com um dos habitantes da minha froids caveaux. O contemplado com a liberdade e escolhido para, grato, perecer em minha garganta foi o Rosso Piceno, Saladini Pilastri, de safra 2007, um dos italianos mais modestos do catálogo da Mistral. O que eu achei de interessante nele é o fato de ser orgânico. Quando comprei não conhecia esse estilo nem o produtor. Vinhos declarados orgânicos ainda são incomuns e isso sempre me chama a atenção.
Rosso Piceno é uma das 13 DOCs de Marche, região situada entre a Emilia-Romagna e a Toscana e Umbria e Adriático. Esse vinho é feito de sangiovese e montepulciano, mas nos vinhos da doc também podem entrar trebiano e passerina.
Logo que abria garrafa provei o vinho na taça. Achei o aroma bem apagado e resolvi passar o vinho para o decanter (o que geralmente me da preguiça, é uma peça a mais pra lavar). Mas não consegui faze-lo se abrir comigo. Paciência, personalidades... Mas ainda puxei uma nota de cedro do aroma.
Um vinho agradável de beber, corpo médio, sem exuberância gustativa mas com certo sabor. Boa acidez e adstringência leve. Álcool equilibradíssimo. Nada mal pra essa madrugada.
Em São Paulo choveu pra burro nesses ultimos dias. Aqui em Santo André não caiu tanta água, pelo menos ela não causou tanto caos (se é que ela pode ser responsabilizada, a cidade por si é um caos). De forma que hoje foi uma ilha de frio dentre os dias de calor que têm feito. Quis aproveita-la com um tinto.
Do meu papo com esse Rosso Piceno não nasceu "poesia que se eleve a Deus como uma rara flor", somente essa mal fadada prosa. Mas também o vinho não é um Premier Cru Classé, ou algo do tipo. Mas, principalmente, eu não sou um Baudelaire, sequer chego perto.
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